A nova vida de Maria e os 496 piauienses que aguardam transplante de órgãos

Pelo menos 496 pessoas estão na fila de espera por um transplante de rim ou córnea no Piauí. Algumas delas aguardam um doador após dez anos de diagnóstico e esbarram na falta de compatibilidade, resistência das famílias e uma fila que pouquíssimo anda.

Maria Clara fez transplante de córne em 2014 (Foto: Arquivo Pessoal)

O Governo do Piauí anunciou nesta quinta-feira (16/05), que 373 delas esperam por uma córnea, enquanto outras 123 precisam de um novo rim. Segundo Cassandra Franco, assistente social da Central de Transplantes do Piauí, o cadastro é nacional e possui vários critérios. Para o paciente receber o novo órgão, eles avaliam o estado de saúde, idade, compatibilidade e localização, por exemplo.

“O andamento da fila não segue um tempo cronológico de inscrição. Ela leva em conta a gravidade do paciente, a compatibilidade do órgão disponibilizado, além do quadro de saúde dos receptores. Mas, elas priorizam os pacientes de todo o Estado, onde ocorre a doação”, explicou a assistente social.

Além da inscrição, os pacientes precisam manter os exames em dia. Uma equipe multifuncional faz esse acompanhamento.

“É de grande relevância que os pacientes fiquem em dia com os seus exames, pois não há um dia exato para acontecer uma doação e consequentemente o transplante”, afirmou a enfermeira Ayla Calixto.

A HISTÓRIA DE MARIA

Hoje, Maria Clara Sousa, 26 anos, vê o mundo com máxima intensidade de cores e ganhou independência viajando. Estudante de Direito, a “vida” dela só começou após conseguir um transplante de córnea. Ela esperou uma doação por seis anos e, finalmente, recebeu o tecido em 2016. A jovem foi diagnosticada com Ceratocone, doença degenerativa que provoca a deformação da córnea.

“Minha família ficou em choque quando recebi o diagnóstico. Ninguém tinha ouvido falar dessa doença. Só eu na família tinha. Me passaram várias formas de tratamento, até que o médico sentou com meus pais e disse: a vida dela pode mudar com um transplante. Então, me puseram na fila e achei que não demoraria muito. Mas, fui esperando e esperando, fazendo exames e mais exames e minha vez nunca chegava. Conhecei gente que aguardava uma córnea há 10 anos, crianças, idosos, adultos e eu. Quando minha vez chegou, eu passei por todo o processo chorando”, recordou ao OitoMeia

Maria Clara tinha Ceratocone e pouco enxergava até os 20 anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Na escola, Maria Clara sentava há poucos centímetros do quadro branco. A melhor amiga escrevia todo o conteúdo para as duas, enquanto gravava a voz dos professores no telefone. Aos 15 anos, ela percebeu que mesmo usando os óculos, a visão que tinha só piorava.

“Eu sempre usei óculos. Minha primeira lembrança é usando óculos. Todas as minhas fotos são usando óculos. Mas, o grau aumentava sempre. Aos 15, o médico falou que o melhor seria lentes de contato. Usei e a visão continuou decaindo. Eu tinha uma visão muito reduzida mesmo. Precisava da ajuda dos meus pais, dos meus amigos, eu não podia andar sozinha. Era muito difícil”, continuou. 

CHEGOU O DIA: O TRANSPLANTE

A vida da jovem deu uma virada de 360° em 2016. Maria Clara, finalmente, foi chamada para fazer o transplante.

“Eu lembro que minha mãe e outras mães ficavam observando quem chegava em estado grave nos hospitais. Elas conversavam com a família sobre a possibilidade de doação. Parece invasivo, mas todo mundo fica cansado de esperar. Tem gente que precisa de coração, pulmão, fígado e está internado ou debilitado, aguardando. É como se você esperasse a morte chegar. É uma impotência inexplicável. Não é como se você pudesse comprar ou se esforçar para conseguir, você depende da escolha do outro, da vida do outro. Simplesmente assim”, disse a estudante. 

Ao ser convocada, ela conta que sofreu uma crise de ansiedade e só acreditou na mudança após a cirurgia.

“Na fila, eu cheguei a ser chamada por duas vezes. Você vai fazer o transplante agora, eles diziam, mas não dava certo. Daí, outra pessoa precisava mais e recebia a córnea. Quando eles me chamaram na terceira, achei que fosse acontecer a mesma coisa. Chorei muito o processo todo, mas o hospital tinha uma equipe incrível, eles seguraram na minha mão até a sala de cirurgia. Ver o mundo de novo me emociona até hoje”, afirmou. 

VÁRIAS NOVAS VIDAS

Cinco anos depois, Maria Clara é formanda em Direito e foi recentemente aprovada no exame da OAB. Ela também viajou sozinha e passou um mês circulando por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Divertiu-se no Lollapalooza, um dos maiores festivais de música do país, e planeja seu primeiro ‘mochilão’ internacional. Fã de pop sul-coreano (Kpop), Maria quer explorar a Ásia e conhecer mais sobre a cultura que tanto ler sobre. Mais do que isso, a piauiense aproveita a independência que nunca pôde ter.

Ano passado, ela fez uma homenagem para Artur, um jovem de 25 anos que morreu em um acidente de carro. A família dele aceitou doar os órgãos após a morte, dando uma nova chance para cinco pacientes que aguardavam na fila.

“Minha vida sempre foi depender do outro. Ganhei novas oportunidades pela escolha difícil de outra pessoa. E doar órgãos é isso. Uma vida que acaba, mas se estende em outra pessoa. O Artur [doador] morreu e a família dele me deu um novo par de olhos. Uma escolha que mudou a família dele, a minha e a de outras 3 pessoas, que carregam um pedacinho dele em si. Passar por essa experiência mudou a vida de cinco famílias, umas dezenas de pessoas que agora entendem o poder da doação. Fazer a doação de órgãos é amar, é libertar, é seguir em frente e ajudar”, concluiu a estudante ao OitoMeia

 

Oito Meia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *