Bolsonaro recebe alta: o que é obstrução intestinal, que causou internação do presidente

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) recebeu alta médica e deixou na manhã deste domingo (18/7) o hospital Vila Nova Star, na zona Sul de São Paulo, onde estava internado desde quarta-feira (14) para tratar um quadro de obstrução intestinal. Ele seguiu para o aeroporto de Congonhas, de onde retorna a Brasília (DF).

Segundo o boletim médico divulgado pelo hospital, o presidente vai continuar recebendo acompanhamento ambulatorial após a alta hospitalar. Bolsonaro saiu andando do hospital, por volta das 9h40 (horário de Brasília), e conversou com jornalistas sem máscara.

“Comecei a passar mal, depois de uma cirurgia de implante, e a origem disso é complicado. Alguns dias depois agravou a crise de soluço, fogo no estômago. A causa era obstrução intestinal, porque a aderência é comum para quem sofreu cirurgia, como eu sofri pela facada’, disse Bolsonaro.

(Foto: Reprodução)

Ele afirmou que estará na Presidência na segunda-feira (19). E sobre a dieta recomendada pelos médicos, completou: “Não vai estar sabendo que vou comer, mas sou péssimo exemplo em dieta”.

Como tudo começou

Na madrugada de quarta-feira (14/7), o presidente foi levado ao Hospital das Forças Armadas, em Brasília, após sentir fortes dores abdominais. Ele já vinha apresentando problemas de saúde nas últimas semanas. No dia 9 de julho, Bolsonaro precisou deixar um jantar com empresários em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, ao passar mal.

O presidente também sofre de soluços constantes, que foram motivos de queixas em transmissões ao vivo, entrevistas e discursos. Um primeiro comunicado, divulgado no fim da manhã de quarta pelo ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, dizia que Bolsonaro estava bem e ficaria em observação pelos próximos dois dias.

Algumas horas depois, veio a notícia de que o quadro poderia ser mais sério: o cirurgião gástrico Antonio Luiz Macedo, que foi responsável por todas as intervenções e tratamentos após o atentado a faca sofrido por Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018, foi até Brasília e, numa avaliação mais aprofundada, diagnosticou a obstrução intestinal.

O médico orientou, então, a transferência de Bolsonaro para São Paulo, onde ele foi submetido a novos exames. Na ocasião, foi cogitada até uma cirurgia de emergência — posteriormente descartada devido à boa evolução do quadro do presidente.

O que é obstrução intestinal?

Como o próprio nome já diz, essa condição está relacionada com o bloqueio de parte do intestino delgado ou do intestino grosso. Essa obstrução impede a passagem de alimentos e enzimas digestivas que, ao longo dos intestinos, estão envolvidos em uma série de processos para extrair nutrientes e descartar aquilo que não será aproveitado pelo corpo, formando as fezes.

Em entrevista recente à BBC News Brasil, o gastroenterologista e cirurgião Flávio Quilici, professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, explicou que os intestinos têm uma estrutura parecida a de canos ou mangueiras.

“Se você pisar na mangueira ou entrar alguma pedra ali dentro, isso causa um entupimento que não deixa a água passar”, disse. O mesmo raciocínio se aplica ao nosso tubo digestivo: caso alguma coisa fique emperrada ali dentro, não há como o conteúdo transitar pelos órgãos e seguir adiante.

O que causa a obstrução intestinal?

Esse entupimento pode ser provocado por uma série de fatores, como doenças inflamatórias (caso de Crohn e diverticulite), tumores e até alimentos secos e duros (como sementes de jabuticaba, por exemplo).

No caso específico de Bolsonaro, os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliaram que o quadro está possivelmente relacionado às várias cirurgias que ele precisou passar após sofrer a facada em 2018.

De acordo com o médico Lúcio Lucas, chefe do centro cirúrgico do Hospital Sírio-Libanês em Brasília, as operações no abdômen levam a um processo de cicatrização, que pode resultar na perda da movimentação do intestino. “Para funcionar a contento, o tubo digestivo se mexe constantemente. E essa mobilidade pode ser prejudicada pela formação do processo cicatricial após os procedimentos cirúrgicos”, assinalou.

Um intestino mais “rígido” e com algumas estruturas cicatrizadas que grudam umas nas outras, portanto, pode sofrer uma espécie de torção, que obstrui parcialmente ou totalmente a passagem dos alimentos — é como se a mangueira do exemplo anterior se dobrasse por completo.

Quais os sintomas da obstrução intestinal?

Esse problema pode evoluir aos poucos e só dar sinais mais contundentes no momento em que está mais grave. Bolsonaro, aliás, sofria há pelo menos dez dias de uma crise constante de soluços. “Os soluços são um sintoma da obstrução, especialmente quando ela acontece em algumas regiões do intestino delgado”, observou Lucas.

Tudo indica que o quadro do presidente foi piorando até ficar insustentável, o que motivou a ida até o hospital em Brasília, avaliou Quilici.

Essa condição também costuma estar relacionada com inchaço e dores fortes na barriga, sintomas que ele apresentou nas últimas horas antes de ser internado, segundo boletins divulgados pelo governo federal na quarta-feira.

Obstrução pode ocorrer em qualquer parte do intestino. (Foto: Getty Images / BBC News Brasil)

Segundo Quilici, é possível detectar a obstrução intestinal no exame físico, feito no próprio consultório, especialmente quando o paciente tem um histórico de cirurgias na região do abdômen. “Podemos também fazer uma radiografia ou uma tomografia para encontrar essa obstrução”, acrescentou.

Esses exames são de rotina quando um paciente é internado com os sintomas de Bolsonaro, segundo médicos ouvidos pela BBC News Brasil, e foram realizados em São Paulo para confirmar o diagnóstico e ter certeza da localização do problema, de acordo com as informações divulgadas na nota da Secom.

O que é feito após o diagnóstico?

Dependendo da causa, da gravidade e do local onde a obstrução ocorreu, o médico opta pelo tratamento conservador ou pela cirurgia. Inicialmente aventada, a possibilidade de cirurgia foi descartada devido à boa evolução do quadro de Bolsonaro.

Lucas explicou que, nos casos menos graves, é possível recorrer ao jejum, a algumas medicações específicas e a determinados procedimentos menos invasivos, como a aspiração do líquido acumulado em razão do entupimento.

O paciente então é monitorado por um tempo, até que sua situação melhore. Quando o bloqueio do tubo digestivo é maior, geralmente é preciso abrir a barriga para desfazer a obstrução ou remover a estrutura que bloqueia e aflige o intestino. De acordo com Quilici e Lucas, a cirurgia é relativamente simples e não costuma estar relacionada a complicações ou a um pós-operatório muito difícil.

“Quando a operação consiste em apenas desfazer a dobra no intestino, a recuperação é rápida, e o quadro costuma evoluir muito bem”, explicou Lucas. “Agora, se o diagnóstico e a intervenção demoram muito a acontecer, há o risco de a região intestinal afetada sofrer uma necrose, o que exige a remoção desse pedaço”, acrescentou Quilici.

Fonte: Terra

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